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Entrevista

Desenterrando The Walking Dead com Charlie Adlard

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Quando você pensa no título da Skybound/Image Comics “The Walking Dead”, você provavelmente imagina a arte de Charlie Adlard, o homem que desenha a HQ desde 2004. Desde então, Adlard e o criador/escritor da série, Robert Kirkman, fizeram algumas coisas bem sacanas com os personagens com que têm trabalhado. Embora, como diz Adlard em relação a um momento em particular, os terríveis atos cometidos contra os personagens da série são importantes para a história e servem como uma maneira de lembrar aos leitores de que ninguém está realmente seguro num mundo infestado de zumbis.

Contém SPOILERS da HQ – Continue por sua conta e risco!

Em Julho, o título de terror e pilar da Image chega a sua edição número 100, e para fazer capas para a edição centenária, se juntam a Adlard: Todd McFarlane, Marc Silvestri, Sean Phillips, Frank Quitely, Bryan Hitch e Ryan Ottley. O conteúdo da edição de 40 páginas está sendo mantido em grande segredo, mas Kirkman disse ao CBR que “será facilmente a mais horrenda, violenta e perturbadora edição de “The Walking Dead” até agora.”

O CBR News falou com Adlard sobre a edição de aniversário bem maior, como é trabalhar com o ridiculamente atarefado Kirkman e o que ele achou quando Kirkman lhe apresentou pela primeira vez a ideia para a capa da edição 100, que traz todos os personagens mortos empilhados abaixo do herói da série, Rick Grimes.

CBR News: Como é o processo de, figurativamente, desenterrar todos os personagens mortos na série para a capa da centésima edição?

Charlie Adlard: Quando Robert disse que poderia ser uma boa ideia, minha reação inicial foi: “Vou ter de desenhar todo esse pessoal de novo?”. Porque, vamos encarar – todo artista que diz que gosta de desenhar uma cena com multidões é um mentiroso. [Risos] Então, inicialmente, eu fiquei tipo “Ai”, mas, novamente, são pessoas pelo chão. Como artista, é bem difícil desenhar várias pessoas diferentes deitadas pelo chão, mortas. É um pequeno problema. Essa foi a sugestão inicial de Robert, e então era comigo elaborar a cena, era eu quem devia tornar as coisas interessantes para mim mesmo. O modelo de Robert era Rick à distância sobre essa pilha de personagens mortos, todos os quais queríamos mostrar [juntamente com] a maneira que foram mortos. Acho que eu dei o ângulo em que está, Robert sugeriu uma visão mais horizontal.

Acho que o que me deixou interessado em desenhar isto foi a decisão – acho que a outra é preta e branca – era minha decisão deixar em tons de cinza, diferir do rígido preto e branco que uso normalmente. De repente, se abriu para mim. Tenho certeza que todos os autores vão rir disso, mas é muito fácil escrever “O exército vem por cima da montanha”, mas não é tão fácil desenhar isso.

CBR News: Este é um dos aspectos apreciáveis do livro, que traz novos personagens e você pode lidar com eles enquanto as coisas progridem?

Charlie Adlard: Ah, com certeza. Essa é uma das [coisas] mágicas sobre o livro. Não é a questão de poder matar essas pessoas, mas é que você tem um elenco de personagens em constante rotação. É ótimo se manter inspirado. Se estamos ficando entediados com um lugar – e, vamos encarar, os personagens passaram muitas, muitas edições nos mesmos lugares. Tínhamos mais 20 edições a mais na prisão e, obviamente, estamos há mais ou menos 20 edições em Washington, DC. Para manter as coisas interessantes, é bom apresentar novos personagens.

CBR News: É meio que incrível que vocês tenham feito todas essas edições juntos e sem interrupção? Há várias pessoas com longos arcos, mas quase sempre há um artista complementar aqui e ali.

Charlie Adlard: Eu meio que fiz isso. De repente, você acorda uma manhã e você já está na edição 100. [Risos] Pra mim, é na verdade, acredite ou não, bem fácil fazer um livro por mês. Nunca sinto – ou pelo menos nunca sinto 95% do tempo – como uma obrigação que as edições saiam. Um dos meus receios antes de começar “The Walking Dead”, quando eu estava fazendo vários projetos com a DC e a Marvel, era o fato de, por ser muito rápido, estaria fazendo mini-séries de 4, 5, 6 edições e eu estaria quase chegando à alma dos personagens e teria acabado. Dessa maneira, eu posso realmente entender os personagens e chegar a eles, aqueles que duram um pouco mais, aqueles que não matamos. É ótimo ter essa liberdade. Tanto que quando tenho algo mais a fazer além das edições de “The Walking Dead”, eu fico mais que feliz de seguir em frente. Diria que gastei 80% do meu tempo, este ano, desenhando “The Walking Dead” e com os outros 20%, gosto de fazer outras coisas. Acho que iria realmente se tornar uma obrigação se eu fizesse 100% zumbis e fosse só isso.

CBR News: Quando falei com Robert, ele disse que toda vez que ele fica um pouco deprimido com “The Walking Dead”, ele vai para algo tipo “Super Dinosaur” para mudar um pouco as coisas.

Charlie Adlard: Para mim é algo mais de estilo, porque quando estou desenhando, são só marcas no papel. Minhas emoções se conectam à leitura e no planejamento do desenho, mas no momento em que estou realmente desenhando, é só colocar no papel. Em termos de estilo, é bom fazer uma pausa e mudar pra algo diferente.

CBR News: Vocês trabalharam juntos por tanto tempo, como a relação de vocês evoluiu desde que começaram o livro?

Charlie Adlard: Na verdade, não mudou muita coisa. Quando começamos a trabalhar juntos, eu já estava na industria há 10, 12 anos, então eu já era o que eles chamavam de veterano, porque, aparentemente, a definição de veterano é “alguém que está na jogada por mais de 10 anos”. Robert sabia que eu podia fazer o serviço. Os primeiros scripts podem ter sido um pouco mais intensivos e nos tratavamos um pouco mais delicadamente, talvez. Não demorou muito pra entrar no fluxo assim que Robert percebeu que não existiriam problemas com a regularidade do gibi, e coisas assim. Já começamos na correria. Em seis edições nós resolvemos o processo e tem sido assim desde então.

CBR News: Robert falou comigo sobre alguns dos momentos mais arrepiantes dos quadrinhos, e seu momento de maior impacto foi a morte de Lori em “The Walking Dead” #48. Você também acha isso? Tem algum outro momento que você acha que causou grande impacto?

Charlie Adlard: Pra ser sincero, são todos aqueles que você sabe: a cena de tortura de Michonne, a decapitação de Tyreese, a morte de Lori. Acho que a morte de Lori foi o ponto mais significativo, não tanto na violência, mas no nível de que podemos dar fim em qualquer um. Antes disso, as pessoas podiam achar que havia alguns certos personagens que estavam a salvo, especialmenteos personagens que estavam lá desde o começo – até Tyreese, porque ele entrou na edição 7 ou 8. Nós matamos Lori e tinha uma criança, e isso abriu as comportas para que pudéssemos fazer qualquer coisa. Acho que as pessoas acordaram e pensaram “Nem Rick está seguro”. Eu não sei Robert, mas eu, com certeza, pensei “Bom, é isso cara, somos nós confirmando. É isso aí. Ninguém está a salvo.”. Eu sei que é um clichê, mas acho que a partir da edição 48 ficou bem claro o que iria acontecer com alguns personagens. Eu não sei o que Robert disse, mas esse foi, provavelmente, um dos momentos mais difíceis dos quadrinhos. Dito isto, as cenas de tortura de Michonne – eu liguei pro Robert e disse que ele teria de me convencer a desenhar isso, e ele convenceu, claro.

CBR News: Você tenta amplificar a violência ou cenas fortes numa página ou painel?

Charlie Adlard: Na verdade, é ao contrário. Eu sou o cara que está tentando diminuir isso. Robert sempre escreve “Faça dessa a cena mais horrorosa que você já desenhou”. Eu gosto do fato de fazermos uma HQ de zumbis, eu gosto do fato de, exatamente por ser dessa natureza, tenha de ser violento e você tenha de mostrar as coisas. Nunca fizemos nada gratuitamente. Parece ridículo de se dizer, mas toda vez que mostramos algum nível de violência contra outro ser humano, sempre foi em serventia à história, mesmo quando mostramos uma cena de tortura. Não foram 15 páginas de violência sem propósito, tinha uma razão pra isso.

Acho que se você começa a fazer tudo para agradar os fãs, porque tem pessoas por aí que só compram “The Walking Dead” porque querem ver violência e vísceras, do meu ponto de vista, não vou dar isto a eles. Não é do que se trata a HQ. A ironia é, eu sempre venho da outra opinião de que a mente sempre cria imagens muito piores do que qualquer coisa que você possa mostrar. Não estou sendo puritano nem nada, eu só acredito nisso. Alguns dos meus filmes de terror favoritos são aqueles em que você quase não vê nada acontecer. Por exemplo, um dos mais intensos e horríveis filmes que eu já vi é provavelmente “O Massacre da Serra Elétrica”. Você não vê nada, sangue, tripas, nada. Eu não acho que alguém assiste esse filme e não fica afetado de uma forma ou de outra.

CBR News: Ainda neste assunto, Robert disse que a edição 100 tem um momento sangrento, de violência, que vai superar todos os outros da série. Eu sei que você não pode dizer nada especificamente, mas você concorda com o julgamento dele?

Charlie Adlard: Sim, eu posso dizer isso. Eu sei o que ele planeja, mas ele não me mandou essa parte da história. Ele disse que me mandaria alguma referência, e disse pra me preparar. Eu estou/não estou ansioso pra recebê-la. [Risos] Coloquemos da seguinte forma: eu sei o que acontece, mas não sei exatamente como será descrito. E eu também sei que Robert muda de ideia. Ele fez uma coisa na edição 98 sobre a qual nunca tinha dito nada e isso quase fez meus olhos saltarem das órbitas, então ele é muito bom nisso.

CBR News: Parece uma parceria interessante porque ele te surpreende, você está exercitando seus músculos artísticos. Parece muito satisfatório.

Charlie Adlard: E é. Não é segredo que nós dois somos incrivelmente ocupados, então não nos falamos tanto quanto gostaríamos. Provavelmente, conversamos cara a cara 2 ou 3 vezes por ano. Estaremos juntos em San Diego, então provavelmente colocaremos em dia, caramba, a conversa de um ano. Conversamos por Skype também, mas só umas duas vezes por ano. É difícil para nós encontrar tempo pra sentar e conversar. É nesse momento que descubro o que acontecerá no futuro, e o fato é que eu realmente gosto de ler os scripts como fã, então não pergunto a ele o que acontecerá porque é bom me surpreender e transmitir isso à arte da HQ. Mandamos e-mails um para o outro várias vezes por semana, mas é o mínimo. Confiamos um no outro pra fazer o melhor que pudermos. Eu confio na narração dele, ele confia na minha arte e as duas coisas se combinam.

CBR News: Quando você e Robert discutem um novo personagem, vocês os comparam a pessoas famosas, em termos de aparência?

Charlie Adlard: Na verdade, sim. Eu não acho que muitos escritores façam, mas acho uma coisa muito útil para um artista. A maioria dos escritores mandam só parágrafos gigantescos tentando descrever um personagem que veem em suas cabeças. Acho que quando se está escrevendo um personagem, você geralmente o vê como alguém que conhece, seja da TV ou do cinema ou alguma coisa assim. Então, a coisa mais fácil a se fazer é dizer isso ao artista. Robert diz “aqui está a pessoa X e aqui está uma pessoa da TV, cinema, música ou qualquer coisa” e partimos daí, mas me dá, instantaneamente, a ideia perfeita de como eles são.

CBR News: Saindo dos gibis para a TV, como tem sido ver alguns dos personagens que você criou e desenhou por anos serem trazidos à vida na tela?

Charlie Adlard: Foi estranho. [Risos] Fui ao set para ver o piloto. Foi curiosamente estranho porque não foi uma perte do livro na qual eu trabalhei. Ser tão ligado ao título e ter, literalmente, feito quase tudo, menos seis edições, e estar no set para ver o pedacinho que não era meu foi muito estranho. Eu não tive tempo para voltar ao set, especialmente na segunda temporada, quando eles estavam chegando ao que era meu, então tem Maggie, Hershel – pessoas assim que estavam sendo apresentadas.

Eu estou mais animado para a Terceira temporada porque vocês verão Michonne, o Governador, alguns dos personagens mais icônicos entrando em cena. Especialmente quando – você pode pegar um personagem como Hershel e deixá-lo com uma aparência completamente diferente daquela da HQ. Não importa, na verdade. Contanto que ele seja um cara velho, não importa. Eu não vou sentar lá e dizer que todos eles têm de se parecer com os personagens do gibi, porque essa é pra ser uma série realista, não um desenho. Eu gostei da aparência da Maggie, gostei da aparência do Hershel. Não importa, contanto que interpretem os personagens. Eu vou admitir que Michonne e o Governador têm de ter a aparência certa, porque são únicos nesse quesito. Não posso dizer mais nada, mas estou realmente tentando ir ao set e ver a prisão, Michonne, o Governador, etc. Acho que pra mim será um pouco mais estranho, um pouco mágico, talvez, ver essas pessoas, que saíram completamente da minha cabeça, vivas numa tela.

A edição #99 de The Walking Dead será lançada em 20 de Junho, com a tão esperada edição #100 marcada para 11 de Julho.


Fonte: CBR News
Tradução: Victória Rodrigues / Staff WalkingDeadBr

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