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The Walking Dead Declínio – Sinopse e leitura do capítulo 1

Rafael Façanha

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Na terça-feira, nós revelamos a capa e as primeiras informações da versão nacional do livro The Walking Dead Descent (The Walking Dead Declínio), disponibilizadas pela Galera Record. Agora, a editora divulgou a sinopse oficial e o primeiro capítulo do livro para leitura online.

O livro, escrito por Robert Kirkman e Jay Bonansinga, foi lançado no dia 14 de Outubro de 2014 nos Estados Unidos e tem previsão de lançamento para Abril de 2015 no Brasil. Confira todas as informações sobre ele abaixo.

INFORMAÇÕES BÁSICAS:

Título original: The Walking Dead Descent
Autores: Robert Kirkman e Jay Bonansinga
Ano: 2015
Série: The Walking Dead
Gênero: Ficção Estrangeira
Páginas: 336
Preço: R$ 39,00

SINOPSE:

Renascida das cinzas de seu passado sombrio, Woodbury se torna um oásis de tranquilidade em meio à praga dos errantes. Mas, após o chocante fim do ex-tirano Phillip Blake, o Governador, Lilly Caul e seu grupo de sobreviventes deverão superar seu passado traumático. E, como sabemos, os mortos-vivos são o menor dos problemas para os habitantes desse inóspito universo.

CAPA:

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The Walking Dead – Declínio: Capítulo 1:

Naquela manhã silenciosa, dois problemas diferentes e preocupantes estão logo abaixo da superfície daquela cidade que é uma ruína incinerada — as duas questões, pelo menos a princípio, passam completamente despercebidas pelos residentes.

O rufar de martelos e o arranhar das serras preenchem o ar. Vozes se erguem ao vento em chamados e respostas ocupados. Os odores familiares de fumaça de madeira, piche e matéria orgânica turvam as brisas mornas. Uma sensação de renovação — talvez até de esperança — pulsa sob a superfície de toda a atividade. O calor opressivo do verão, ainda um ou dois meses distante, não conseguiu murchar as rosas cherokee selvagens que crescem profusamente ao longo dos trilhos abandonados do trem. O céu assume um brilho de alta definição, de um azul como o ovo de um pisco-de-peito-ruivo que o céu por esses lados costuma adquirir nas últimas passageiras semanas da primavera.

Incentivados pela tumultuosa troca de regime, assim como pela possibilidade de um novo modo de vida democrático em meio às ruínas da praga, o povo de Woodbury, Geórgia — que um dia foi um burgo junto à ferrovia, 50 quilômetros ao sul de Atlanta, só recentemente reduzido a prédios carbonizados e estradas desgastadas, marcadas e cobertas de lixo —, se reconstituiu como cadeias de DNA, formando um organismo mais forte e saudável. Lilly Caul é um grande motivo para esse renascimento. A jovem esguia, bonita e amargurada pela batalha, com cabelo castanho-avermelhado e rosto em formato de coração se tornou a líder relutante da cidade.

Neste momento, na verdade, a voz dela pode ser ouvida de qualquer quarteirão, sendo carregada pelo vento com autoridade, flutuando para o alto de carvalhos e álamos que ladeiam o passeio oeste da pista de corrida. De cada janela aberta, cada beco, cada curva da arena, ela pode ser ouvida vendendo o pequeno assentamento com o entusiasmo de um agente imobiliário da Flórida anunciando propriedades em frente à praia.

— Neste instante, a zona de segurança está reduzida, admito — comenta Lilly candidamente para algum ouvinte não identificado. — Mas estamos planejando expandir aquela parede ali mais um quarteirão para o norte, e esta aqui talvez mais dois ou três ao sul, então, no fim, vamos acabar com uma cidade dentro de outra, um lugar seguro para crianças, o qual, um dia, se tudo correr bem, será totalmente controlado e totalmente autossustentável.

Conforme o som alegre do monólogo de Lilly ecoa e penetra nas reentrâncias e fendas daquele estádio de corrida — lugar onde um dia a loucura reinou na forma de lutas sangrentas mortais —, a figura escura presa sob um bueiro vira o rosto incinerado na direção da voz com a brusquidão mecânica de uma antena de satélite girando na direção de um sinal do espaço.

O cadáver queimado e reanimado, que um dia foi um fazendeiro alto, com músculos definidos e uma cabeleira espessa cor de palha, tropeçou para dentro do bueiro quebrado durante o caos e o incêndio que tomaram a cidade havia pouco tempo, e vem passando despercebido havia praticamente uma semana, gemendo naquela cápsula de escuridão fétida e sem ar. Centopeias, besouros e tatuzinhos rastejam descontroladamente pelo rosto sem vida e pálido dele e descem pela sua calça jeans surrada e desbotada, cujo tecido está tão velho e gasto que mal se distingue da pele morta da coisa.

Esse errante desgarrado, que já foi um membro cativo dos gladiadores não humanos que animavam a arena, se provará o primeiro de dois acontecimentos muito preocupantes que passam completamente despercebidos por todos os residentes da cidade, incluindo Lilly, cuja voz se ergue a cada passo em direção à pista de corrida, o arrastar de outros passos audível sob os dela.

— Agora, vocês podem estar se perguntando: “Estou vendo coisas ou um disco voador gigante aterrissou no meio da cidade quando ninguém estava olhando?” O que estão vendo é a Pista de Corrida dos Veteranos de Woodbury. Acho que a chamariam de um resquício de tempos mais felizes, quando as pessoas não queriam nada numa sexta-feira à noite além de um balde de frango frito e uma pista cheia de homens em stock cars ultrapassando uns aos outros e poluindo a atmosfera. Ainda estamos pensando no que fazer com ela… mas achamos que daria um ótimo jardim público.

Dentro da clausura fétida da galeria de esgoto, o fazendeiro morto baba diante da perspectiva de tecido vivo se aproximando. O maxilar dele começa a se abrir e a ranger, fazendo um ruído como o de papel sendo amassado, conforme a criatura vagueia em direção à parede, estendendo os braços às cegas na direção da luz do dia que se infiltra pelo bueiro. Pelas barras estreitas de ferro da tampa, a criatura consegue ver as sombras de sete humanos vivos se aproximando.

Mas a coisa acidentalmente prende o pé direito em um buraco na terra despedaçada da construção.

Errantes não têm habilidades para escalada, nenhum propósito a não ser devorar, nenhuma noção a não ser a da fome, mas, naquele momento, o obstáculo imprevisto é suficiente para que a coisa quase que acidentalmente se erga até a tampa quebrada pela qual havia caído. E, quando seus olhos de botão branco alcançam a borda do buraco, a criatura fixa o olhar feroz na figura mais próxima: uma garotinha vestindo trapos que anda ao lado de Lilly com uma expressão séria no rosto sujo de poeira.

Por um momento, o errante dentro do esgoto se encolhe como uma mola, emitindo um grunhido baixo que mais parece um motor, e seus músculos mortos se contraem devido a sinais inatos enviados por um sistema nervoso reanimado. A boca escura e sem lábios da criatura se descola dos dentes verde-musgo, os olhos são como diodos leitosos absorvendo a presa.

***

— Vocês vão ouvir boatos sobre isso mais cedo ou mais tarde — confidencia Lilly aos clientes malnutridos enquanto passa a centímetros da tampa do bueiro.

O grupo do tour é composto por apenas uma família, os Dupree, que consiste em um pai macilento de cerca de 40 anos que atende pelo nome de Calvin, sua esquálida esposa, Meredith, e seus três trapinhos: Tommy, Bethany e Lucas, de respectivamente 12, 9 e 5 anos. O clã Dupree surgiu nos limites da cidade de Woodbury na noite anterior, em uma caminhonete Ford LTD caindo aos pedaços, quase mortos por inanição, praticamente psicóticos de fome. Lilly os acolheu. Woodbury precisa de gente, novos residentes, novatos que possam ajudar a cidade a se reconstruir e fazer parte do trabalho pesado de montar uma comunidade.

— Melhor que ouçam de nós — diz Lilly para eles, parando e vestindo o moletom da Georgia Tech e uma calça jeans rasgada, com as mãos no cinto de munições Sam Browne. Ainda com 30 e poucos anos, mas com o rosto de uma alma muito mais velha, Lilly prendeu o cabelo castanho-avermelhado em um rabo de cavalo apertado, seus olhos castanhos brilhavam com uma faísca no centro das pupilas, em parte inteligência e em parte a expressão ausente de um guerreiro experiente. Ela olha por cima do ombro para uma sétima figura atrás de si. — Quer contar a eles sobre o Governador, Bob?

— Vá em frente — encoraja o homem mais velho com um sorriso cansado pela praga no rosto marcado pelo tempo com a pele grossa. Com o cabelo escuro penteado com gel para trás sob a testa enrugada, o cinto de munição acima da camisa de cambraia manchada de suor, Bob Stookey tem 1,80 metro de altura, mas curva o corpo com a fadiga eterna de um bêbado recuperado, que é o que ele é. — Você está mandando bem, menina Lilly.

— Tudo bem… Então… durante praticamente um ano — começa ela enquanto encara os Dupree, um de cada vez, enfatizando a importância do que está prestes a dizer — este lugar, Woodbury, esteve sob o domínio de um homem muito perigoso chamado Philip Blake. Que era chamado de Governador. — Ela solta um suspiro ínfimo, que é meio um risinho, meio um suspiro de nojo. — Eu sei… não deixamos de notar a ironia. — Ela inspira. — Enfim… ele era um completo sociopata. Paranoico. Delirante. Mas fazia as coisas. Odeio admitir, mas… ele pareceu, para a maioria de nós, pelo menos, durante um tempo, um mal necessário.

— Desculpe… hã… Lilly, é isso? — Calvin Dupree deu um passo adiante. Ele é um homem pequeno, de pele clara, com os músculos duros e demarcados de um trabalhador braçal. Está vestindo um casaco imundo, o qual parece ter sido usado como avental de açougueiro. Seus olhos estão sóbrios, acolhedores e abertos, apesar do jeito reticente e do trauma permanente de ter ficado no mundo selvagem sabe Deus por quanto tempo. — Não tenho certeza do que isso tem a ver com a gente. — Ele olha para a esposa. — Quero dizer… agradecemos a hospitalidade e tudo, mas aonde quer chegar com isso?

A esposa, Meredith, encara a calçada, mordendo o lábio. É uma mulher pequenininha e calada que usa um vestido de alça aos farrapos e que não disse mais que três palavras — a não ser por “hum” ou “aham” — desde que chegaram. Na noite anterior, eles foram alimentados, receberam primeiros socorros de Bob e foram deixados para descansar. Agora, a mulher se distrai enquanto espera Calvin exercer seu dever patriarcal. Atrás dela, as crianças olham com expectativa. Parecem em choque, confusas, esquivas. A menininha, Bethany, está a apenas alguns centímetros da tampa do bueiro quebrada, chupando o dedo com uma boneca surrada na dobra do bracinho, completamente alheia à sombra que se move dentro do buraco.

Durante dias, o fedor emanando do esgoto — o odor peculiar de carne rançosa de um Mordedor — foi confundido com o fedor de esgoto velho, e o ruído de grunhidos baixos foi identificado erroneamente como a reverberação de um gerador. Agora o cadáver reanimado consegue espremer a mão feito garra por uma abertura na tampa quebrada, as unhas podres estendendo-se na direção da bainha do vestido da garota.

— Entendo a confusão — diz Lilly a Calvin, fixando o olhar nele.

— Nunca nos viu. Mas achei que… sabe. Toda a verdade. O Governador usava esta arena para… coisas ruins. Lutas de gladiadores contra Mordedores. Coisas feias em nome do entretenimento. Algumas pessoas por aqui ainda estão meio assustadas por causa daquilo tudo. Mas tomamos o lugar de volta e estamos oferecendo um santuário, um lugar seguro para viver. Gostaríamos de convidar vocês para ficarem aqui. Permanentemente.

Calvin e Meredith Dupree trocam mais um olhar e a mulher engole em seco, olhando para o chão. Calvin está com uma expressão estranha — quase um desejo —, e se vira para começar a dizer:

— É uma oferta generosa, Lilly, mas preciso ser sincero…

Subitamente, ele é interrompido pelo rangido enferrujado da tampa cedendo e a menininha gritando aterrorizada. Em seguida, todos disparam na direção da criança.

Bob pega a Magnum .357.

Lilly já percorreu metade da distância da calçada rachada até a garota.

O tempo parece ficar suspenso no ar.

Desde que a praga irrompeu, há quase dois anos, a mudança nos padrões de comportamento dos sobreviventes tem sido tão gradual, sutil e progressiva que foi quase invisível. Os sangrentos dias iniciais da Transformação, que a princípio pareciam tão temporários e novos — capturados naquelas manchetes queixosas como os mortos andam, ninguém está seguro e será o fim? — se tornaram rotineiros, e isso aconteceu sem que ninguém de fato percebesse. Os sobreviventes ficaram cada vez mais eficientes em estourar a bolha, atacar sem refletir e sem cerimônia, destruir o cérebro de um cadáver violento com o que tivessem à mão — a espingarda da família, uma ferramenta de agricultura, uma agulha de crochê, uma taça de vinho quebrada, uma relíquia sobre a lareira —, até que o ato mais repulsivo tornou-se lugar-comum. O trauma perde todo o sentido; luto, tristeza e perda são abafados garganta abaixo até que uma dormência coletiva se instaure.

Mas soldados ativos conhecem a verdade sob a mentira. Detetives de homicídios também. Enfermeiras de prontos-socorros, paramédicos — todos conhecem o segredinho sujo. Não fica nem um pouco mais fácil. Na verdade, isso sobrevive dentro de você. Cada trauma, cada visão terrível, cada morte insensível, cada ato de violência feroz e ensanguentado em nome da autopreservação: tudo isso se acumula como sedimentos no fundo do coração de uma pessoa, até que o peso se torne insuportável.

Lilly Caul ainda não chegou a esse ponto — como ela está prestes a demonstrar nos próximos segundos para a família Dupree —, mas está a caminho. Está a algumas garrafas de uísque barato e umas duas noites em claro da total aniquilação de espírito, e é por isso que ela precisa repovoar Woodbury, precisa de contato humano, precisa de uma comunidade, de calor, amor, esperança e gentileza onde puder encontrar. E é por isso que golpeia aquele cadáver fétido de um fazendeiro com extremo preconceito quando ele irrompe da sua toca e segura a bainha surrada da menininha Dupree.

Lilly cobre a distância de 5 metros entre ela e a garota em apenas alguns saltos, ao mesmo tempo em que saca a Ruger SR calibre .22 do pequeno coldre na traseira do cinto. A arma é de ação dupla, e Lilly a mantém engatilhada e destravada, um pente de fileira única dentro dela com oito balas prontas para detonar e uma sempre na câmara. Não é uma arma de grande capacidade, mas é o bastante para dar conta do trabalho. Lilly está mirando no alvo, a visão se fechando em um túnel conforme dispara na direção da menininha que grita.

A criatura da galeria de esgoto enroscou uma das mãos esqueléticas na bainha xadrez do vestido da criança, o que tirou o equilíbrio da menina e a jogou, estatelada, no cimento. Ela grita sem parar, tentando rastejar para longe, mas o monstro agarra seu vestido e morde o ar ao redor dos tênis dela, os incisivos viscosos estalando como castanholas, movendo-se para cada vez mais perto da carne macia do tornozelo esquerdo de Bethany.

Naquele instante frenético antes de Lilly disparar fogo — uma suspensão onírica do tempo ao qual o povo da praga está quase se acostumando —, o restante dos adultos e das crianças recua e arqueja em uníssono. Calvin tateia em busca da faca de caça no cinto, Bob pega a .357, Meredith cobre a boca e solta um gemidinho de choque, enquanto as outras crianças recuam espantadas, com os olhos arregalados.

A essa altura, Lilly já está próxima do Mordedor, com a Ruger erguida e na mira. Ao mesmo tempo em que empurra a criança para longe do perigo com a ponta da bota, ela desce o cano a centímetros do crânio do monstro. A mão do errante continua enganchada na bainha do vestido da criança, o tecido se rasga e a menininha arranha o concreto.

Quatro disparos rápidos como balões estourando penetram o crânio do Mordedor.

Uma mancha de borrifo de sangue atinge o pórtico atrás da criatura enquanto um fragmento de crânio do tamanho de um biscoito sai voando. O ex-fazendeiro desaba instantaneamente no chão. Um rio de sangue negro escorre em todas as direções por debaixo da cabeça destroçada enquanto Lilly recua, piscando, recuperando o fôlego, tentando não pisar no rastro da poça crescente conforme abaixa o percussor da arma e ativa a trava de segurança.

Bethany continua gemendo e gritando, e Lilly vê que a mão do errante ainda está presa — o rigor mortis contraindo os tendões — em torno de uma parte do vestido xadrez rasgado. A menininha se encolhe e arqueja como se não conseguisse reunir lágrimas depois de tantos meses de horror, e Lilly vai até ela.

— Está tudo bem, querida, não olhe. — Lilly deixa a pistola cair e aninha a cabeça da menina. Os outros se reúnem ao redor deles, Meredith ajoelhada, Lilly golpeando a mão morta com a bota. — Não olhe.

— Ela rasga o vestido. — Não olhe, querida. — A menininha, por fim, encontra as lágrimas. — Não olhe — repete Lilly, sussurrando, quase como que falando consigo mesma.

Meredith puxa a filha para um abraço desesperado e sussurra bem baixinho ao ouvido da criança:

— Está tudo bem, Bethany, querida, estou aqui… estou aqui.

— Acabou. — Lilly abaixa a voz, como se estivesse se convencendo de alguma coisa. Solta um suspiro de agonia. — Não olhe — murmura mais uma vez para si mesma.

Mas Lilly olha.

Ela provavelmente deveria parar de espiar os errantes depois de destruí-los, mas não consegue evitar. Quando o cérebro finalmente sucumbe, o ímpeto sombrio desaparece do rosto deles e a letargia vazia da morte retorna, Lilly vê as pessoas que eles foram. Ela vê um fazendeiro com grandes sonhos que talvez tenha cursado até o ensino fundamental, mas precisou assumir a fazenda do pai doente. Ela vê policiais, enfermeiras, carteiros, balconistas e mecânicos. Vê seu pai, Everett Caul, aconchegado nas dobras de seda de seu caixão, esperando o enterro, em paz e sereno. Ela vê todos os seus amigos e entes queridos que faleceram desde que a epidemia varreu o território — Alice Warren, Doc Stevens, Scott Moon, Megan Lafferty e Josh Hamilton. Está pensando em mais uma vítima quando uma voz áspera quebra o feitiço.

— Menina Lilly? — É a voz de Bob. Baixa. Parece vir de muito longe. — Você está bem?

Durante um último instante passageiro, encarando o rosto morto daquele fazendeiro, ela pensa em Austin Ballard, o jovem que tinha a beleza andrógina de um astro do rock e cílios longos, que ela viu ser sacrificado em um campo de batalha para salvar Lilly e metade das pessoas de Woodbury, inclusive ela. Será que Austin Ballard foi o único homem que Lilly realmente amou?

— Lilly? — A voz de Bob aumenta um pouco atrás dela, com um tom de preocupação. — Você está bem?

Lilly solta um suspiro doloroso.

— Estou bem… estou bem. — Subitamente, sem aviso, ela fica de pé. Lilly acena com a cabeça para Bob e então pega a pistola, enfiando-a de volta no coldre. Então umedece os lábios e olha ao redor para o grupo. — Está todo mundo bem? Crianças?

As outras duas crianças assentem devagar, olhando para Lilly como se ela tivesse acabado de laçar a Lua. Calvin guarda a faca na bainha e se ajoelha para acariciar o cabelo da filha.

— Ela está bem? — pergunta o homem à esposa.

Meredith dá um breve aceno de cabeça, mas não diz nada. Os olhos da mulher parecem vidrados.

Calvin suspira e fica de pé. Ele se aproxima de Lilly. Ela está ocupada ajudando Bob a arrastar o cadáver para debaixo de uma marquise a fim de recolherem mais tarde. Lilly fica de pé, limpa as mãos na calça jeans e se vira para encarar o recém-chegado.

— Sinto muito por vocês terem que presenciar isso — diz a Calvin.

— Como está a menina?

— Vai ficar bem, ela é forte — responde Calvin. Ele sustenta o olhar de Lilly. — E você?

— Eu? — Lilly suspira. — Estou bem. — Ela emite outro suspiro doloroso. — Só cansada disso.

— Entendo. — O homem inclina um pouco a cabeça. — Você é bem habilidosa com essa arma.

Lilly dá de ombros.

— Não sei quanto a isso. — Então olha ao redor do centro da cidade.

— É preciso ficar de olhos abertos. Este lugar foi palco de muitos tumultos nas últimas semanas. Perdeu uma seção inteira da muralha. Ainda tem alguns desgarrados. Mas estamos retomando o controle.

Calvin consegue dar um sorriso cansado.

— Acredito em você.

Lilly repara em algo pendurado na corrente no pescoço do homem: uma grande cruz de prata.

— Então, o que acha? — pergunta ela.

— Sobre o quê?

— Sobre ficar. Fazer um lar aqui para sua família. O que acha?

Calvin Dupree inspira fundo e se volta para olhar a mulher e a filha.

— Não vou mentir… não é má ideia. — Ele umedece os lábios, pensativo. — Estamos em trânsito há muito tempo, exigindo muito das
crianças.

Lilly olha para ele.

— Este é um lugar em que podem estar seguras, ser felizes, levar uma vida normal… mais ou menos.

— Não estou dizendo que não. — Calvin olha para Lilly. — Só estou pedindo… que nos dê tempo para pensar, fazer uma oração.

Ela assente.

— É claro. — Por um breve momento, pensa nas palavras “fazer uma oração” e imagina como seria ter um religioso no grupo. Alguns dos homens do Governador costumavam pregar sobre terem Deus ao seu lado, sobre o que Jesus faria, e toda essa baboseira de emissora cristã. Lilly nunca teve muito tempo para religião. É claro que rezou silenciosamente em algumas ocasiões desde que a praga irrompeu, mas na cabeça dela, não conta. Como é que dizem? “Não há ateus nas trincheiras.” — Ela encara os olhos cinza-esverdeados de Calvin. — Leve todo o tempo de que precisar. — Lilly sorri. — Olhe em volta, conheça o lugar…

— Isto não será necessário — interrompe uma voz, e todas as cabeças se viram para a mulher esquálida ajoelhada perto da criança trêmula. Meredith Dupree acaricia o cabelo da menina e não faz contato visual ao falar. — Agradecemos sua hospitalidade, mas iremos embora ainda esta tarde.

Calvin olha para o chão.

— Mas, querida, nem mesmo discutimos o que vamos…

— Não há o que discutir. — A mulher ergue o rosto, os olhos brilhando com emoção. Os lábios rachados dela tremem, a pele pálida cora. Meredith parece uma boneca de porcelana delicada com uma rachadura escondida no corpo. — Vamos embora.

— Querida…

— Não há mais nada a discutir.

O silêncio que se segue torna o momento de desconforto quase surreal, conforme o vento balança as copas das árvores, assobiando as treliças e os suportes do estádio adjacente, e o fazendeiro morto apodrece silenciosamente no chão a apenas alguns metros. Todos próximos de Meredith, inclusive Bob e Lilly, olham para baixo com constrangimento mútuo. E o silêncio se prolonga até Lilly murmurar algo:

— Bem, se mudarem de ideia, sempre podem ficar. — Ninguém diz nada. Lilly consegue dar um sorriso torto. — Em outras palavras, a oferta está de pé.

Durante um breve momento, Lilly e Calvin trocam um olhar furtivo, e uma quantidade enorme de informação é compartilhada entre os dois (parte intencional, parte não intencional) sem que uma palavra seja dita. Ela permanece em silêncio por respeito, ciente de que esse assunto entre os dois recém-chegados está longe de ter sido resolvido. Calvin olha para a mulher esquiva enquanto ela dá atenção à criança.

Meredith Dupree parece um fantasma; seu rosto angustiado está tão pálido, fechado e assombrado que ela parece desaparecer gradualmente.

Ninguém percebe no momento, mas essa dona de casa desleixada e diminuta — completamente imperceptível de quase todas as formas concebíveis — provará ser o segundo e mais intenso problema com o qual Lilly e o povo de Woodbury, cedo ou tarde, precisará lidar.

Fiquem ligados aqui no Walking Dead Brasil e em nossas redes sociais @TWDBrasil no twitter e Walking Dead Br no facebook para ficar por dentro de tudo que rola no universo de The Walking Dead.

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Destaque

The Walking Dead vai mostrar o apocalipse zumbi na China em nova série de livros

The Walking Dead: Typhoon | Skybound anunciou uma nova história do universo de The Walking Dead ambientada na China escrita por Wesley Chu .

Vinícius Castro

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Escrito pelo autor Wesley Chu e com previsão de lançamento para 1º de outubro de 2019, “The Walking Dead: Typhoon” (The Walking Dead: Tufão, em tradução literal) deve ser o mais novo projeto spin-off do mundo pós-apocalíptico criado por Robert Kirkman.

Levando a história da franquia para o continente asiático pela primeira vez, Typhoon seguirá um trio de protagonistas – Zhu, um fazendeiro; Hengyen, um veterano do exército; e Elena, uma estudante americana – tendo de lidar com uma horda de proporções inimagináveis que ameaça um vilarejo chinês nos primeiros dias da epidemia zumbi.

O livro terá 400 páginas e distribuição/licenciamento da Skybound, mesma editora dos quadrinhos de The Walking Dead.

Vale lembrar também que a história não deve ter nenhuma relação com Rick Grimes ou outros personagens já estabelecidos. Além disso, possui total independência da outra série de livros da franquia, escritos por Kirkman e Jay Bonansinga, que abordou a história de Lilly Caul e o peso de seu tempo ao lado do Governador.

Ainda não há previsão de lançamento no Brasil.

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Livros

The Walking Dead Busca e Destruição – Sinopse e leitura do capítulo 1

Rafael Façanha

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Galera Record disponibilizou a sinopse oficial e o primeiro capítulo do sétimo volume da saga de livros de The Walking Dead para leitura online.

The Walking Dead: Busca e Destruição, escrito por Robert Kirkman e Jay Bonansinga, foi lançado no dia 18 de Outubro de 2016 nos Estados Unidos e será lançado neste mês no Brasil. Confira todas as informações sobre ele abaixo.

ONDE COMPRAR?

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INFORMAÇÕES BÁSICAS:

Título original: The Walking Dead: Search and Destroy
Autores: Robert Kirkman e Jay Bonansinga
Ano: 2017
Série: The Walking Dead
Gênero: Ficção Estrangeira
Páginas: 294
Preço: R$ 39,00

SINOPSE:

Lilly Caul e seu bando acreditaram que a paz estava mais próxima. Uma velha ferrovia que ligava Woodbury e Atlanta permitiu um projeto de reconstrução que acarretaria uma nova era de trocas, progresso e democracia. Isso até a cidade ser mais uma vez atacada e todas as crianças raptadas. Quem seria capaz submeter inocentes a tal violência gratuita, e por quê? As respostas para tais perguntas vão revelar que os mortos-vivos não são o maior problema do mundo pós-apocalipse. O maior dos desafios sempre repousa em seus adversários humanos…

CAPA:

The Walking Dead Busca e Destruição: Capítulo 1:

UM

Naquela manhã escaldante de veranico, único trabalhador da ferrovia fazia a mínima ideia do que transpirava naquele exato momento no pequeno povoado de sobreviventes outrora conhecido como Woodbury, na Geórgia. A restauração da ferrovia entre o vilarejo de Woodbury e os subúrbios distantes de Atlanta consumiu essas pessoas — ocupando todas as horas de seus dias já há quase 12 meses —, e aquele dia não é exceção. Eles se aproximam da metade do projeto. Em pouco menos de um ano, limparam quase 30 quilômetros de trilhos e ergueram uma barreira sólida de estacas e tela nos dois flancos a fim de manter a linha livre de vagabundos, animais desgarrados e ferozes e qualquer outra obstrução que pudesse explodir, penetrar, crescer ou arrastar-se pelos trilhos.

Agora, sem saber da catástrofe que se desenrolava naquele momento em seu lar comunitário, a líder de fato da equipe, Lilly Caul, faz uma pausa no trabalho de escavação para assentar uma estaca, e enxuga o suor da testa.

Refletindo, ela olha o céu cinzento. O ar, em meio aos zumbidos dos insetos, é fragrante com o forte cheiro fértil dos campos agrícolas abandonados e sem cultivo. A batida abafada de marretas — cravos entrando em antigos dormentes da ferrovia — proporciona um ritmo sincopado ao barulho das cavadeiras. A meia distância, Lilly vê a mulher alta de Haralson — aquela que atende pelo nome de Ash —, próxima ao local de trabalho, patrulhando, com uma Bushmaster AR-15 no quadril. Ostensivamente, ela se mantém vigilante, procurando por qualquer errante que possa ser atraído pelo barulho da construção, mas naquela manhã em especial ela está particularmente alerta. Algo não parece certo. Ninguém consegue articular muito bem o que é, mas todos sentem.

Lilly retira as luvas de trabalho sujas e relaxa as mãos doloridas. O sol da Geórgia martela a nuca avermelhada e esbelta, no ponto onde o cabelo castanho arruivado está preso numa trança irregular. Seus olhos castanhos, ocultados por suaves pés de galinha, percorrem a área, avaliando o progresso dos outros trabalhadores ao longo da cerca
de tela. Embora ainda esteja a alguns anos dos 40, Lilly Caul exibe as rugas e linhas de preocupação de uma mulher muito mais velha. Seu rosto, tornou-se estreito e juvenil tornou-se mais sombrio ao longo dos difíceis quatro anos desde a praga. Sua energia ilimitada perdeu forças nos últimos meses, e os ombros sempre caídos lhe conferem um ar de meia-idade, apesar de seus característicos trajes hipster: camiseta de indie-rock esfarrapada, calça justa rasgada, botas de motoqueiro arruinadas e incontáveis pulseiras e colares de couro cru.

Agora ela nota alguns errantes cem metros a oeste, arrastando-se em meio às árvores — Ash percebe também —, a essa altura nada digno de preocupação, mas ainda algo que precisa ser acompanhado. Lilly observa os outros integrantes de sua turma de trabalho espaçados a intervalos regulares pelos trilhos, batendo cavadeiras na terra dura coberta de hera e vernônia. Vê alguns rostos conhecidos, outros desconhecidos, além dos que que só conheceu dias antes. Ela vê Norma Sutters e Miles Littleton, inseparáveis desde que se juntaram ao clã de Woodbury, há mais de um ano. Ela vê Tommy Dupree, o menino agora de 14 anos que parece ter quase 30, endurecido pela pandemia, um prodígio com armas de fogo e lâminas afiadas. Ela vê Jinx Tyrell, a solitária do norte que se provou uma verdadeira máquina de matar errantes. Jinx mudou-se para Woodbury alguns meses atrás, depois de ser recrutada por Lilly. A cidade precisa de novos cidadãos a fim de prosperar, e Lilly é excepcionalmente grata por ter esse pessoal durão do seu lado.

Intercalados em meio à família ampliada de Lilly estão os líderes de outros vilarejos que pontilham a área rural desvastada entre Woodbury e Atlanta. São pessoas boas e dignas de confiança, como Ash de Haralson, e Mike Bell, de Gordonburg, e vários outros que se juntaram à turma de Lilly por interesses, sonhos e temores em comum. Alguns continuam meio céticos diante da grandiosa missão de ligar as cidades sobreviventes à grande cidade do norte por meio da luta de foice que é essa ferrovia, porém muitos se juntaram à causa puramente por acreditarem em Lilly Caul. Lilly causa esse efeito nas pessoas — uma espécie de osmose de esperança —, e, quanto mais as pessoas trabalham nesse projeto, mais acreditam nele. Elas agora o veem tanto como uma tentativa admirável de controlar um ambiente que está fora de controle quanto um esforço para reconquistar uma civilização perdida.

Lilly está prestes a calçar as luvas de novo e voltar a cavar quando vê Bell a cerca de 400 metros, fazendo a curva do norte num galope rápido do cavalo de dorso curvo. O líder de 30 e poucos anos do pequeno grupo de sobreviventes entocados no vilarejo antes conhecido como Gordonburg, na Geórgia, é um homem diminuto, com cabeleira cor de areia que agora balança e tremula ao vento enquanto ele se aproxima dos trabalhadores. Alguns dos outros — Tommy, Norma, Miles — levantam a cabeça, sempre protegendo a amiga e líder.

Lilly pula o guarda-freio e caminha até a rampa de cascalho enquanto o homem se aproxima pela névoa com seu sarnento cavalo ruão avermelhado.

— Tem mais em nosso caminho! — exclama ele. O animal é irrequieto, de pescoço grosso, provavelmente um mestiço com vestígios de cavalo de tração no sangue. Bell cavalga com a deselegância saltitante e desajeitada do autodidata. Ele puxa as rédeas e vacila até parar no cascalho, levantando um pequeno redemoinho de poeira.

Lilly segura o cavalo, pegando em seu freio, e firma a cabeça que se agita loucamente. Uma espuma empoeirada pinga da boca do bicho, a pelagem molhada de suor.

— Tem mais o quê? — Ela olha para Bell. — Um errante? Mais ruínas? Um unicórnio… O quê?

— Uma ponte grande e velha sobre cavaletes — esclarece o homem, descendo do cavalo e batendo com força no chão, soltando um resmungo. Ex-funcionário de TI em Birmingham, o rosto juvenil queimado de sol e pontilhado de sardas, ele usa calções caseiros feitos de lona de barraca. Considera-se um cara do campo, mas pelo modo como luta com o cavalo e fala com o mais leve vestígio de vogais arrastadas, revela que é da cidade. — A uns 800 metros ao norte daqui — diz ele, gesticulando com o polegar. — A terra desce, e os trilhos passam direto por um vão instável por cerca de 50 metros.

— E qual é o prognóstico?

— Quer dizer com a ponte? É difícil saber, a coisa é muito complicada.

— Deu uma olhada mais de perto? Talvez a tenha atravessado com o cavalo, para testar ou algo assim?

Ele balança a cabeça em negativa.

— Desculpe-me, Lilly, só pensei que você ia querer saber disso prontamente.

Ela esfrega os olhos e reflete. Já faz algum tempo — meses, na verdade — que eles não encontram uma ponte sobre cavaletes. E a última só estava a poucos metros de distância. Ela começa a dizer alguma coisa quando o cavalo empina de repente; assustado ou por um barulho, ou um cheiro indetectável pelos humanos. Lilly acalma o animal, acariciando seu flanco gentilmente.

— Shhhhh — diz ela com suavidade à criatura, passando a mão pela crina embaraçada. — Está tudo bem, amigo, relaxe.

O animal tem um cheiro de bode, almiscarado devido ao suor e aos machinhos incrustados de sujeira. Os olhos estão avermelhados pelo esforço. A realidade é que aquele ruão alquebrado — e sua espécie como um todo — tornou-se tão valioso aos sobreviventes quanto eram no século XIX para aqueles que tentaram domar o oeste. Carros e caminhões ainda operacionais são mais raros a cada dia — até os suprimentos de óleo de cozinha para o biodiesel estão minguando. As pessoas dotadas de conhecimento, mesmo que rudimentar, sobre a criação de cavalos, de sua vida antes da praga, agora passaram a ser muito procuradas e respeitadas, como anciãos sábios de quem se espera ensinamentos e a transmissão do conhecimento. Lilly chegou até a recrutar alguns para morar em Woodbury.

Nos últimos meses, muitas carcaças enferrujadas de carros foram cortadas ao meio e convertidas em carroças improvisadas e geringonças para ser atreladas a cavalos e ser parelhas. Nos anos desde o surto, a pavimentação foi maltratada pelas intempéries e se deteriorou para além de qualquer reparo. Os trechos restantes já tomados de mato, intransitáveis e esfarelados, são a maldição da existência dos sobreviventes. Daí a necessidade de um sistema de transporte seguro, confiável e rápido.

— Ele está assim o dia todo. — Bell assente com deferência para seu cavalo. — Assustado com alguma coisa aqui fora. E não são errantes.

— Como você sabe que não são errantes? Talvez um enxame chegando ou coisa assim?

— Passamos por um bando deles esta manhã, e as coisas nem mesmo o abalaram. — Ele acaricia o animal e sussurra para ele: — Não foi, Gypsy? Eles o abalaram? — Bell olha para Lilly. — Tem outra coisa no vento hoje, Lilly. Só não consigo identificar. — Ele suspira e olha para longe, como um garoto tímido. — Desculpe por não ter verificado a estabilidade da ponte… Foi uma idiotice de merda da minha parte.

— Não xingue, Bell. — Lilly lhe abre um sorriso. — Acho que é como o velho ditado, “vamos cruzar essa ponte quando chegarmos lá”.

Bell ri meio alto demais, sustenta o olhar da amiga por um tempo um pouco longo também. Alguns param de trabalhar e olham a dupla. Tommy se apoia na pá e sorri. Basicamente não é mais segredo que Bell tem uma paixão desesperada por Lilly. Mas também não é algo que Lilly queira perpetuar. No momento, a única coisa que consegue administrar na vida pessoal é cuidar dos garotos Dupree. Além disso, ela ainda lamenta a perda de basicamente todas as pessoas que um dia amou. Ainda não está preparada para entrar em um relacionamento. Mas isto não quer dizer que às vezes não pense em Bell, em geral à noite, quando o vento sussurra pelas frestas e a solidão a pressiona. Ela pensa em passar os dedos pelos cabelos gloriosamente fartos e louros de Bell. Pensa em sentir o toque macio de sua respiração na clavícula…

Lilly se livra das ruminações melancólicas e saca do bolso um velho relógio de bolso Westclox. Preso a uma corrente escurecida, o relógio pertencia ao falecido Bob Stookey, o melhor amigo e mentor de Lilly, um homem que morreu heroicamente há pouco mais de um ano, tentando, dentre outras coisas, salvar as crianças de Woodbury. Talvez por isso Lilly tenha adotado os órfãos da cidade. Lilly ainda lamenta a gestação perdida, a centelha que podia ter sido o filho de Josh Hamilton, um aborto espontâneo em meio ao tumulto do regime do Governador. Talvez por isso sua maternidade substituta agora pareça quase uma parte essencial da sobrevivência em si — uma parte inata de seu futuro, assim como do futuro da raça humana.

Ela baixa os olhos para a face amarelada do relógio e vê a hora do almoço se aproximando.

Ela não sabe que sua cidade está sob ataque havia quase uma hora.

Quando Lilly era uma garotinha, o pai viúvo, Everett Caul, uma vez contou-lhe a história da “Sopa de Pedra”. Uma história popular, com uma miríade de versões em muitas culturas diferentes, fala de três vagabundos desconhecidos que estão passando fome quando chegam a um pequeno vilarejo. Um deles tem uma ideia. Ele encontra uma panela no monte de lixo da cidade e pega algumas pedras, coletando água de um regato próximo. Aí acende uma fogueira e começa a cozinhar as pedras. O povo da aldeia fica curioso. “Estou preparando sopa de pedra”, ele lhes conta quando perguntam o que está fazendo, “e vocês são bem-vindos para tomar um pouco quando estiver pronta.” Um a um, os moradores começam a contribuir. “Tenho umas cenouras em minha horta”, oferece um. “Nós temos uma galinha”, diz outro. E logo a sopa de pedra é um caldeirão borbulhante de generosidade saborosa, contendo legumes, carnes e ervas aromáticas de várias casas.

Talvez a memória da amada história de ninar de Everett Caul estivesse latente na mente de Lilly quando ela decidiu ligar as pequenas cidades sobreviventes em sua região à cidade grande no norte por meio da ferrovia desativada.

Ela teve a ideia no ano anterior, depois de se encontrar com os líderes das cinco comunidades principais. De início, o propósito da reunião — que aconteceu no antigo e venerável prédio do tribunal de Woodbury — era partilhar recursos, informações e boa vontade com as outras cidades da Geórgia central. Porém, quando os líderes das cinco comunidades falaram da diminuição de seus suprimentos, das viagens cada vez mais perigosas e da forte sensação de isolamento em terras rurais, Lilly resolveu entrar em ação. Não contou seu plano a ninguém, no início. Simplesmente começou a limpar e consertar os antigos trilhos petrificados da ferrovia West Central Georgia Chessie Seaboard que passava por Haralson, Senoia e Union City.

Ela começou aos poucos, algumas horas por dia, com Tommy Dupree, uma picareta, uma pá e um ancinho. No começo, foi lento — alguns metros por dia sob o sol causticante —, com os errantes continuamente atraídos pelo barulho. Ela e o garoto tiveram de repelir incontáveis mortos naqueles primeiros dias. Mas os errantes eram o menor de seus problemas. Era a terra que lhes dava o maior sofrimento.

Ninguém tem certeza das causas, mas, nos últimos quatro anos após a praga, o ecossistema se transformou. O mato e uma oportunista relva silvestre tomaram conta de tudo, a ponto de sufocar galerias, obstruir leitos de rio e praticamente atapetar as estradas. Trepadeiras se multiplicaram em tal profusão que outdoors, celeiros, árvores e postes telefônicos inteiros foram literalmente cobertos por suas gavinhas desenfreadas. A deterioração verde deixou tudo peludo de vegetação, inclusive os incontáveis restos humanos que ainda jaziam em valas e trincheiras. O mundo ficou cabeludo, e o pior parecia ter se apoderado dos trilhos de ferro da linha Chessie Seaboard em tranças obstinadas de flora com a espessura de cabos.

Durante semanas, Lilly e o garoto cortaram a hera inclemente, transpirando ao sol, empurrando um carrinho de mão para o norte, por trechos limpos, com uma lentidão laboriosa. Mas o trabalho barulhento — que não era diferente da panela fervente aos cuidados dos forasteiros na história da “Sopa de Pedra” — atraiu olhares curiosos, de gente que espiava por cima dos muros de cidades sobreviventes pelo caminho. As pessoas começaram a se aproximar e colaborar. Logo Lilly tinha mais ajuda que jamais previra. Alguns trouxeram espontaneamente ferramentas e equipamento de construção, como cavadeiras, aparadores manuais e foices. Outros trouxeram mapas de ferrovias abandonadas, encontrados em bibliotecas públicas, walkie-talkies a manivela para fins de comunicação e verificação, e armas para a segurança. Parecia haver um fascínio geral pela missão quixotesca de Lilly de limpar a ferrovia até Atlanta. Na verdade, este fascínio estimulou um desenvolvimento involuntário que surpreendeu até mesmo a própria Lilly.

No segundo mês do projeto, as pessoas começaram a ver o ousado empreendimento de Lilly como o arauto de uma nova era, talvez até uma líder de um novo governo regional pós-praga. E ninguém conseguia pensar numa pessoa melhor para ser a líder desse novo regime que Lilly Caul. No início do terceiro mês, foi feita uma votação no tribunal de Woodbury, e Lilly foi eleita por unanimidade a governante da cidade — para seu grande desgosto. Lilly não se enxergava uma política nem uma líder, nem — Deus me livre — uma governadora. No máximo, considerava-se uma gerente de nível médio.

— Caso alguém esteja interessado — disse uma voz atrás de Lilly, enquanto ela procurava seu parco almoço na mochila —, acabamos de cruzar o marco dos 40 quilômetros.

A voz era de Ash. Ela se portava com a arrogância pronunciada de uma atleta, toda pernas arqueadas e músculos. Naquele dia trazia uma cartucheira de lona da era Vietnã com pentes de vinte balas cruzando a camiseta Hank Williams Jr. E uma bandana em volta do cabelo preto como carvão, e tudo isso camuflava a antiga vida de aristocrata nos enclaves ricos do nordeste norte-americano. Ela se aproxima, numa das mãos tem uma lata semiconsumida de carne Spam, e na outra, um mapa amassado.

— Este lugar está ocupado? — Ela aponta para um toco vago.

— Sente aí — responde Lilly, sem nem mesmo olhar, procurando na mochila as frutas secas e velhas e a carne-seca, os quais vinha racionando havia semanas. Ela se senta em um rochedo coberto de musgo enquanto pega as iguarias. Em Woodbury ultimamente, só existem comestíveis com longa vida de prateleira — passas, enlatados, carne-seca, misturas para sopa. As hortaliças foram colhidas até o fim, e já fazia algum tempo desde que alguma caça silvestre ou peixe entrava no alcance do abate. Woodbury precisava expandir as capacidades agrícolas, e havia meses Lilly vinha arando a terra pela periferia da cidade.

— Então vamos fazer as contas. — Ash enfia o mapa no bolso de trás, senta-se ao lado de Lilly, põe outra colherada de Spam na boca e saboreia a carne processada, como se fosse foie gras. — Estamos nessa desde junho do ano passado. Nesse ritmo… O que vai ser? Vamos chegar à cidade no próximo verão?

Lilly olha para ela.

— Isso é bom ou ruim?

Ash sorri.

— Fui criada em Buffalo, onde a construção dura mais tempo que a maioria dos casamentos.

— Então acho que estamos indo bem.

— Mais que bem. — Ash olha para trás, para os outros, que se espalham pelo lugar. Agora estão devorando seus almoços, alguns sentados nos trilhos, outros à sombra de imensos carvalhos vivos, contorcidos e antigos. — Só estou me perguntando se conseguimos manter o ritmo.

— Acha que não vai dar?

Ash dá de ombros.

— Parte dos trabalhadores vem reclamando do tempo que passa longe de seu pessoal.

Lilly concorda com a cabeça e olha a selva de trepadeiras se entrelaçando e trançando pela terra.

— Acho que podemos fazer mais uma pausa no outono, quando chegam os meses de chuva. Isto nos dará uma chance de…

— Desculpe-me se pareço um disco arranhado — intromete-se outra voz atrás de Ash, interrompendo e arrancando a atenção de Lilly da densa vegetação a leste. Ela vê um homem desengonçado e de joelhos ossudos, chapéu fedora e short cáqui, pulando para elas da arena de cavalos. — Mas existe algum motivo para ninguém ter ideia de qual é a situação do combustível?

Lilly suspira.

— Relaxe, Cooper. Coma seu almoço, recupere o nível de açúcar no sangue.

— Isso não é brincadeira, Lilly. — O sujeito ossudo se coloca diante dela com as mãos nos quadris, como se esperasse um relatório. Tem uma Colt Single Action Army .45 no coldre do cinto Sam Browne e um rolo de corda para escalada no quadril oposto. Ele empina o queixo pronunciado enquanto fala, fingindo ser um aventureiro arrojado. — Já passei por isso vezes demais.

Lilly olha para ele.

— Passou pelo quê? Por acaso teve outra praga que não vi?

— Você entendeu o que eu quis dizer. Acabo de vir do armazém de Senoia e eles ainda não encontraram nenhum combustível por lá. Lilly, estou te falando, já vi muitos projetos caírem pelo caminho por problemas com combustível. Se você se lembra, estive envolvido no projeto de…

— Eu sei, você já nos contou, mais de uma vez, até decoramos, sua “empresa projetou mais de uma dezena dos maiores arranha-céus de Atlanta”.

Cooper funga, seu pomo de adão proeminente subindo e descendo de frustração.

— Só estou falando que… Não podemos fazer nada sem combustível. Sem combustível só estamos limpando trilhos de metal que não vão a lugar algum.

— Cooper…

— Em 79, quando a Opep aumentou os preços do petróleo e o Irã fechou seus campos, tivemos de cancelar completamente três construções em Peachtree. Só ficaram suas fundações, como dinossauros no alcatrão.

— Tudo bem, escute aqui…

Outra voz soa atrás de Ash.

— Ei, Indiana Jones! Dá um tempo!

Todas as cabeças se viram para Jinx, a jovem andarilha que Lilly arregimentou no início do ano. Uma confusão volátil, brilhante e bipolar em forma de gente, Jinx usa colete de couro preto, uma miríade de tatuagens, múltiplas facas embainhadas no cinto e óculos escuros redondos, no estilo steampunk. Ela se aproxima rapidamente, as mãos em punho.

Cooper Steeves recua como quem se submete a um animal raivoso.

Jinx fala na cara do homem, o corpo tenso e retraído como uma mola de relógio.

— O que é essa compulsão sua de encher o saco dessa mulher todo santo dia?

Lilly se levanta e gesticula para Jinx se afastar.

— Está tudo bem, querida, eu cuido dessa.

— Cai fora, Jinx. Só estamos conversando aqui. — A petulância de Cooper Steeves esconde muito mal seu medo da jovem. — Você está exagerando.

A essa altura, Miles e Tommy já levantaram atrás de Ash, a expressão cautelosa contorcendo seus rostos. No ano que passou, provavelmente mais pelo calor que pelo estresse de ficar ao ar livre, houve discussões horrendas e até algumas brigas de soco na ferrovia. Todo mundo agora ficava de guarda alta. Até Norma Sutters — a antiga regente de coral gorducha e zen — já levava a mão direita roliça cautelosamente ao punho de sua .44.

— Todo mundo baixando a bola! — Lilly levanta as mãos e fala sucintamente, mas com firmeza. — Jinx, para trás. Cooper, preste atenção. Você está levantando questões legítimas. Mas a verdade é que estamos avançando no preparo de mais biodiesel e temos aquele motor em Woodbury que já convertemos. Além disso, temos os vagões-plataforma puxados a cavalo e alguns carrinhos de mão para nos levar aonde precisamos ir até termos outros motores funcionando. Está bem? Está satisfeito?

Cooper Steeves olha a terra, solta um suspiro de frustração.

— Tá legal, pessoal! Ouçam! — Lilly olha para além do grupo a sua volta, para o restante dos trabalhadores. Estreita os olhos para o céu impiedoso, depois para seu pessoal. — Vamos terminar o almoço, limpar mais cem metros, cercar e encerrar o dia.

Às quatro horas daquela tarde, uma camada fina de nuvens havia chegado e parado acima da Geórgia central, tornando a tarde cinzenta e tempestuosa. A brisa traz o cheiro de ferrugem e decomposição. A luz do dia derrama um brilho descorado atrás do alto dos morros a oeste. Exausta, suada, com a nuca formigando de uma tensão nervosa inexplicável, Lilly encerra o dia de trabalho quando enfim vê a ofensiva ponte de Bell logo à frente. A ferrovia segue esse trecho por uma vala densamente arborizada, como o baluarte de uma ponte levadiça gótica, um trecho antigo maltratado, de madeira preta de mofo, tomada por trepadeiras e hera, gritando por reparos e reforço; uma tarefa colossal que Lilly está mais que disposta a protelar para o dia seguinte.

Ela resolve pegar uma carona para casa com Tommy Dupree em uma das carroças improvisadas puxadas a cavalo — a carroceria queimada de um utilitário antigo; o motor, as rodas da frente e a metade traseira removidos para acomodar uma parelha de cavalos de tração atrelada aos tocos do chassi. Tommy prendeu um sistema complexo de rédeas e nós corrediços aos animais, e, entre os relinchos e bater de cascos dos cavalos, e os rangidos e guinchos dos cabos provisórios, a coisa faz muito barulho enquanto eles tomam o acesso de terra que desce para os campos de tabaco ao sul.

Eles viajam principalmente em fila única, a carroça de Tommy na frente, seguida pelo restante dos trabalhadores, alguns a cavalo, outros em meios de transporte mistos semelhantes.

Quando chegam à rodovia 85, alguns da turma se separam do grupo para voltar às respectivas comunidades a norte e a leste. Bell, Cooper e outros ofereceram um cumprimento de cabeça quando viraram para o oeste e desaparecem na névoa do fim de tarde. Ash acena para Lilly ao liderar meia dúzia de seus companheiros, moradores de Haralson, em torno dos restos petrificados de um ônibus virado da Greyhound que jaz pelas pistas da rodovia no sentido norte. Os anos descoraram e cobriram os destroços com uma vegetação tão espessa que parece que a própria terra está em vias de reclamar a carcaça de metal do veículo. Lilly olha seu relógio de bolso. Já passa das cinco. Ela preferia chegar em casa antes de a noite cair.

Eles só veem sinais do ataque quando chegam à ponte coberta em Elkins Creek.

— Esperem… Peraí… Que merda é essa? — Lilly se deslocou para a beira do banco da cabine e agora se inclina para a frente, olhando o céu obscuro e estanhado sobre Woodbury, a cerca de 2 quilômetros de distância. — Mas o que diabos…?

— Ôa! — Tommy bate as rédeas e leva a carroça pela escuridão da ponte coberta. — O que foi isso, Lilly? Que fumaça é essa?

As sombras deprimentes tragam os dois por um momento enquanto os cavalos lutam para puxar a carroça pelo espaço fechado e malcheiroso, o barulho ricocheteando pelas tábuas maltratadas pelo tempo. Quando saem do outro lado, Jinx já passou zunindo por eles e esporeou o cavalo para um morro adjacente.

O coração de Lilly começa a disparar.

— Jinx, está enxergando? O que é a fumaça?

Na crista do morro, Jinx puxa o cavalo a uma parada canhestra e pega o binóculo. Olha pelas lentes, depois fica inteiramente imóvel. Quinze metros abaixo dela, Tommy Dupree faz a carroça parar aos sacolejos na estrada de acesso.

Lilly ouve os outros parando atrás. A voz de Miles Littleton.

— O que está acontecendo?

Lilly grita para a jovem no cavalo.

— Jinx, o que é?

Jinx fica dura como um manequim e olha pelo binóculo. Ao longe, uma coluna de fumaça preta como nanquim sobe em espiral do centro da cidade.

The Walking Dead, a história de drama mais assistida da TV a cabo, retorna no dia 12 de fevereiro de 2017 no AMC Internacional, às 00h, e no FOX Action (canal do pacote premium FOX+) e FOX Brasil, às 00h30. Confira todas as notícias sobre a sétima temporada.

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Livros

The Walking Dead: Busca e Destruição | Capa e informações do sétimo livro da saga

Rafael Façanha

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A Galera Record divulgou na última semana a capa brasileira e a sinopse do sétimo livro de The Walking Dead, de Jay Bonansinga e Robert Kirkman, “The Walking Dead: Busca e Destruição” (The Walking Dead: Search and Destroy).

SINOPSE:

Lilly Caul e seu bando acreditaram que a paz estava mais próxima. Uma velha ferrovia que ligava Woodbury e Atlanta permitiu um projeto de reconstrução que acarretaria uma nova era de trocas, progresso e democracia. Isso até a cidade ser mais uma vez atacada e todas as crianças raptadas. Quem seria capaz submeter inocentes a tal violência gratuita, e por quê? As respostas para tais perguntas vão revelar que os mortos-vivos não são o maior problema do mundo pós-apocalipse. O maior dos desafios sempre repousa em seus adversários humanos…

A data de lançamento não foi divulgada, mas acredita-se que a publicação ocorra já nos primeiros meses de 2017. Mais informações devem ser divulgadas em breve.

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